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Tempo de leitura: 9 minutos

Uma narrativa que merece ser checada

 

No dia 7 de março de 2026, véspera do Dia Internacional da Mulher, o pronunciamento do Governo Federal falou sobre violência de gênero, feminicídio e proteção às mulheres brasileiras. Temas extremamente urgentes e necessários, sem dúvida. Mas, em determinado momento do discurso, o foco mudou:

 

“É o dinheiro da comida, do aluguel, da escola das crianças que desaparece na tela do celular. Os cassinos são proibidos no Brasil. Não faz sentido permitir que os Jogos do Tigrinho entrem nas casas, endividando as famílias pelo celular.”

 

A imagem construída foi clara: a mulher brasileira como vítima das apostas. A mãe de família que perde o dinheiro do leite no Tigrinho. 

 

Nós entendemos a preocupação e ela é legítima. O jogo compulsivo é uma realidade para muitas famílias brasileiras. Há pessoas em sofrimento real, com histórias reais de perda financeira e impacto familiar. Esse grupo merece atenção, cuidado e políticas públicas efetivas.

 

Mas, quando a narrativa não corresponde ao que os dados mostram, ela não apenas distorce a realidade, mas infantiliza um grupo inteiro de pessoas. E no caso específico das mulheres, faz exatamente o oposto de empoderá-las.

 

Por essa razão, essa argumentação deve ser iniciada após uma avaliação mais racional dos dados.

 

Quem é a mulher brasileira que aposta?

 

A AMIG, em parceria com a KTO, realizou em 2025 a pesquisa Mulheres nas Apostas, o estudo mais completo já produzido no Brasil sobre o comportamento feminino no mercado de apostas. Os resultados contrariam quase todo estereótipo.

 

A apostadora brasileira típica tem entre 18 e 39 anos, 81,3% se enquadram nessa faixa etária. Mais da metade, 53%, tem ensino superior completo. Ela é digital por natureza: 85% dos acessos são via dispositivos móveis. E aposta com regularidade: 40% o fazem semanalmente.

 

É um perfil jovem, escolarizado e consistente. Não o de uma pessoa à espera de proteção, mas o de uma consumidora ativa de entretenimento que faz escolhas informadas.

 

Sua motivação principal confirma isso: 70% das apostadoras apontam diversão como razão para apostar, não dívida, não desespero financeiro, não promessa de renda fácil. Entretenimento, da mesma forma que se assiste a uma série ou vai a um show.

 

E quando se trata de controle financeiro, o comportamento feminino é, na média, mais cauteloso que o masculino: 28% limitam seus gastos a até R$100 por semana, com limites bem definidos e pouca variação.

 

O universo das apostas, percebido por décadas como território essencialmente masculino, está mudando de rosto. Em 2025, as mulheres passaram a representar 37% dos apostadores em plataformas legalizadas, em 2024, essa participação era de 33,2%. A trajetória é de crescimento consistente, e ela acontece por escolha.

 

O rosto do jogo problemático no Brasil: jovem, vulnerável e invisível no mercado ilegal

 

Existe, sim, um grupo que precisa de atenção urgente. Os dados do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), conduzido pela UNIFESP com financiamento da SENAD e publicado em 2025, são precisos sobre quem ele é, 16.608 entrevistados, escala PGSI de validação internacional:

 

  • 64,8% dos apostadores com comportamento problemático são homens; 35,2% são mulheres;
  • 52,8% dos apostadores com renda inferior a 1 salário mínimo apresentam jogo de risco ou problemático;
  • Faixa etária predominante: 25 a 49 anos, com crescimento preocupante entre adolescentes;
  • O DataSenado confirma: maioria masculina, entre 16 e 39 anos, com até 2 salários mínimos por mês;
  • O próprio Ministério da Fazenda registrou apenas 28,9% de mulheres na base de usuários do mercado regulado.

 

Por que esse perfil importa e o que o mercado regulado tem a ver com ele

 

Esse é o jovem que, muitas vezes, tem poucas opções de lazer acessível e viu nas apostas uma alternativa de reversão rápida de uma realidade difícil. Um perfil que o Brasil conhece bem e que merece políticas públicas construídas à sua medida, não à medida de uma narrativa que não o representa.

 

É exatamente esse grupo que se torna mais visível (e mais protegido) dentro de um mercado regulado. No mercado ilegal, ele simplesmente não existe para nenhuma política pública: não há cadastro, monitoramento, autoexclusão e limite de depósito. Existe apenas uma plataforma que aceita o depósito e não repassa valor algum.

 

Os dados não estão aqui para negar a preocupação com o jogo compulsivo. Estão aqui para torná-la mais precisa e, portanto, mais útil para quem de fato precisa de ajuda.

 

Quando a proteção vira paternalismo

 

Há uma diferença importante entre proteger pessoas vulneráveis e presumir que um grupo inteiro é vulnerável por definição. Confundir os dois não apenas distorce a realidade e faz com que os recursos e as políticas públicas sejam direcionados para o lugar errado.

 

Quando a narrativa aponta para “as mães de família” como as principais vítimas das bets, sem que os dados sustentem essa escolha, ela cumpre um papel de comunicação. Mas não um papel de saúde pública. E o custo disso é tornar invisível quem de fato precisa de atenção.

 

A luta pelo protagonismo feminino inclui o nosso direito de sermos tratadas como protagonistas, não como um público indefeso. Quando usam a imagem da mulher para construir um argumento que os dados não confirmam, isso também é uma forma de apagar quem nós somos e quem de fato precisa de apoio.

 

A mulher no setor: de consumidora a protagonista

 

Há ainda outro dado que raramente entra nessa conversa: as mulheres não estão apenas do lado de quem aposta. Elas estão em toda a cadeia produtiva do iGaming brasileiro.

 

A AMIG reúne mais de 1.500 profissionais do setor: advogadas especialistas em regulação tributária e compliance, gestoras de risco, especialistas em meios de pagamento, líderes de tecnologia, diretoras de marketing e de operações. 

 

Essas mulheres constroem as regras desse mercado, fiscalizam seu funcionamento e trabalham diariamente para que ele seja mais seguro e responsável.

 

São também as mesmas que, pela narrativa baseada em opinião e não em fatos, deveriam estar sendo “protegidas” do setor pelo qual são profissionalmente responsáveis.

 

Esse paradoxo tem nome: é a invisibilidade da competência feminina. E a AMIG existe, em parte, para torná-la cada vez mais visível.

 

Quer entender por que o Tigrinho não é o vilão do endividamento brasileiro? Leia o próximo artigo desta série: O Tigrinho Destruiu as Finanças do Brasil? O que os dados realmente mostram.

 

A AMIG — Associação de Mulheres da Indústria do Gaming — reúne mais de 1.500 profissionais do setor de iGaming no Brasil. A pesquisa “Mulheres nas Apostas” (AMIG/KTO, 2025) está disponível mediante solicitação em amig.bet.

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