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O endividamento brasileiro tem nome e NÃO é tigrinho | AMIG

O endividamento brasileiro tem nome e NÃO é tigrinho

Tempo de leitura: 10 minutos

O vilão mais conveniente do Brasil

 

Existe uma tradição antiga no debate público brasileiro: escolher um vilão simples para um problema complexo. Já foi o funk, já foi o videogame, já foi a internet. Agora é o Tigrinho.

 

Não é difícil entender por que funcionou. O Fortune Tiger tem tudo que uma boa narrativa de escândalo precisa: um nome memorável, uma estética colorida que parece inocente e casos reais de pessoas em dificuldade. A mídia encontrou nele um símbolo perfeito. 

 

As histórias individuais de quem desenvolveu dependência de jogo são reais, e o sofrimento por trás delas merece toda a atenção, da saúde pública, das plataformas e do Estado. 

 

Mas uma coisa é reconhecer que o jogo compulsivo existe e precisa de resposta séria. Outra, completamente diferente, é concluir que o Tigrinho é o responsável pelo endividamento das famílias brasileiras.

 

Essa segunda afirmação não resiste a um olhar honesto sobre os dados. E dados importam, especialmente quando o que está em jogo é a formulação de políticas públicas.

 

82,8 milhões de inadimplentes. A culpa é do slot?

 

Em março de 2026, o Mapa da Inadimplência da Serasa registrou 82,8 milhões de brasileiros inadimplentes, o maior número da série histórica, representando 50,5% da população adulta do país. Quase um em cada dois adultos brasileiros tem o nome negativado. São 338,2 milhões de dívidas em aberto, com valor médio de R$6.728 por pessoa.

 

A pergunta natural é: de onde vem essa dívida? A Serasa respondeu:

 

  • Cartão de crédito aparece em 73% dos casos de endividamento bancário
  • Empréstimos pessoais em 56%
  • Cheque especial em 33%
  • 47% de todas as dívidas estão no sistema financeiro, índice 23,6% maior do que no período pré-pandemia
  • O principal motivo declarado: desemprego ou perda de renda (38%), seguido de gastos com saúde (16%) e desorganização financeira (13%)

 

As apostas online não aparecem. Em nenhuma categoria. Em nenhuma metodologia.

 

O crédito rotativo, com juros que chegam a 400% ao ano, fácil de contratar, difícil de sair, é o protagonista silencioso dessa crise que afeta metade dos adultos do país. Ela existia antes do Tigrinho. Existia antes das bets. Vai continuar existindo se as casas de apostas e jogos online desaparecer amanhã.

 

A cobertura que emociona e o que ela não conta

 

A mídia brasileira construiu uma narrativa poderosa sobre o tema, com depoimentos reais de pessoas em crise, famílias endividadas, histórias de perda que mobilizam e geram identificação. Esse tipo de cobertura tem valor genuíno: ela dá visibilidade a um problema de saúde pública que precisa de atenção.

 

Mas ela carrega um viés estrutural que precisa ser nomeado: casos extremos não representam a média. A mulher que perdeu tudo é notícia. A mulher que aposta R$ 50 por semana por diversão, assiste ao jogo com amigas e saca normalmente quando ganha não é pauta e ela é a maioria, como mostrou a pesquisa Mulheres nas Apostas da AMIG.

 

Quando a narrativa é construída exclusivamente a partir de rupturas, ela distorce a percepção sobre quem usa o produto. E a distorção de percepção tem consequências reais: produz políticas públicas mirando no alvo errado enquanto o problema de fato, juros abusivos, desemprego, ausência de educação financeira, segue sem resposta à altura.

 

Mas é possível usar o cartão de crédito nas plataformas de aposta? 

 

Aqui está o dado que quase nenhuma reportagem menciona e que muda completamente o argumento:

 

Desde a regulamentação de 2025, cartões de crédito não são aceitos como forma de pagamento em nenhuma plataforma de apostas autorizada no Brasil.

 

Não é uma gentileza dos operadores. É uma exigência regulatória, e está sendo cumprida. Os depósitos em plataformas licenciadas são realizados exclusivamente via Pix, dentro de limites estabelecidos, com identidade verificada e conta vinculada ao CPF. O apostador joga com o dinheiro que tem, não com o dinheiro que vai dever ao banco com 400% de juros.

 

Essa mudança elimina exatamente o mecanismo que tornava o endividamento por apostas mais grave no período pré-regulação: a facilidade de usar crédito rotativo em plataformas sem nenhum controle. Antes de 2025, qualquer plataforma, legal ou ilegal, aceitava qualquer pagamento, sem limite e sem rastreamento. Era aí que o risco de endividamento se encontrava com o jogo.

 

As plataformas licenciadas também são obrigadas, por lei, a oferecer autoexclusão centralizada por CPF, limites de depósito configuráveis pelo próprio usuário, alertas de tempo de jogo, verificação de identidade no cadastro e proibição de acesso para menores. O mercado ilegal não oferece nada disso. E é lá, nas plataformas sem licença, sem cadastro e sem limite, que os casos mais graves seguem acontecendo.

 

Enfraquecer o mercado regulado com narrativas que não se sustentam nos dados não protege ninguém. Pelo contrário: deixa o apostador vulnerável num território sem regra nenhuma.

 

A conta que o setor paga e que raramente aparece no debate

 

Mais um dado que costuma ficar de fora: o setor de apostas regulado é um dos que mais contribui para a arrecadação pública no Brasil. A tributação sobre a receita bruta das plataformas subiu de 12% para 13% em 2026, com previsão de atingir 15% até 2028. Somados IRPJ, CSLL, PIS e Cofins, a carga tributária efetiva ultrapassa 40%, uma das mais pesadas entre os mercados regulados do mundo.

 

Parte dessa arrecadação vai, por lei, para o Ministério da Saúde, incluindo o financiamento de tratamentos de dependência. Ou seja: o setor que é acusado de destruir famílias está, literalmente, pagando parte da conta do tratamento de quem precisa de ajuda.

 

Um setor que proíbe cartão de crédito, exige identificação, oferece autoexclusão e financia tratamento de saúde não é um problema a ser combatido com retórica. É uma estrutura que merece ser fortalecida com mais fiscalização, especialmente contra os ilegais que não seguem nenhuma dessas regras.

 

O que podemos entender sobre a relação

 

O Brasil tem 82,8 milhões de inadimplentes. O cartão de crédito aparece em 73% das dívidas. O desemprego é o principal motivo de endividamento declarado. Os juros do rotativo chegam a 400% ao ano.

 

Diante de tudo isso, por que o debate sobre o endividamento das famílias brasileiras tem como protagonista um jogo de slot?

 

A resposta tem mais a ver com o poder do símbolo do que com o peso dos dados. E símbolos equivocados, mesmo quando usados com boa intenção, têm consequências reais: desviam atenção, mal alocam recursos e deixam sem resposta os problemas que mais precisam ser enfrentados.

 

O jogo compulsivo é um problema real que merece políticas públicas reais, construídas sobre dados, não sobre narrativas convenientes. Essa é a conversa que o Brasil precisa ter. E a AMIG vai continuar colocando ela na mesa.

 

Este artigo faz parte de uma série. Leia também: “A Mulher no Mercado de Jogos e Apostas: Do Lazer Consciente à Liderança do Setor”

 

A AMIG — Associação de Mulheres da Indústria do Gaming — reúne mais de 1.500 profissionais do setor de iGaming no Brasil. Acesse amig.bet.

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